NO ECRÃ
Ouallywood: A História do Cinema em Aït Benhaddou
De Lawrence da Arábia a Game of Thrones — porque é que este ksar de terra batida e os estúdios da vizinha Ouarzazate se tornaram um dos desertos substitutos preferidos do cinema mundial.
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Ouarzazate e a região que a rodeia — montanhas áridas, terra vermelha, um ksar fortificado que parece não existir em mais lado nenhum, mesmo com orçamento de cinema — captaram a atenção do realizador David Lean durante a procura de locais para Lawrence da Arábia no início dos anos 1960. A região oferecia o que um estúdio não conseguia: luz real do deserto, arquitetura de terra verdadeira e terreno aberto e vazio suficiente para representar a Arábia, a Roma Antiga ou a Terra Santa, consoante o guião. Essa primeira produção colocou a área no mapa da indústria, e nunca mais saiu dele.
A primeira vaga
Ao longo das décadas de 1960 e 70, mais produções seguiram o exemplo de Lean na região. Aït Benhaddou — já por si um cenário fortificado impressionante e natural — apareceu em Sodoma e Gomorra e, mais tarde, em O Homem Que Queria Ser Rei (1975), de John Huston, filmado em parte junto ao ksar e em parte em Ouarzazate e nos desfiladeiros vizinhos. Cada produção que por ali passou deixou equipas locais, motoristas e intermediários com experiência cinematográfica, construindo gradualmente a infraestrutura — e a reputação — que viria a permitir à região competir por produções muito maiores no futuro. O passa-palavra entre os localizadores de cenários fez o resto, consolidando a reputação da região anos antes de ali ser construído qualquer estúdio dedicado.
Ouallywood nasce
Essa infraestrutura em expansão cristalizou-se em 1983 com a abertura dos Atlas Corporation Studios, nos arredores de Ouarzazate — hoje entre os maiores estúdios de cinema do mundo em área —, seguidos mais tarde pelos CLA Studios, nas proximidades. Entre eles e as paisagens naturais circundantes, incluindo Aït Benhaddou, a cidade conquistou o seu apelido: Ouallywood. Os cenários construídos para um épico histórico são frequentemente adaptados e reutilizados no seguinte, o que explica por que o mesmo trecho de deserto continua a surgir como o antigo Egito, Jerusalém, Roma e Tibete em filmes diferentes, com décadas de intervalo.
Os anos de sucesso estrondoso
A partir dos anos 90, os estúdios e o ksar acolheram uma lista de produções cada vez mais ambiciosas: A Múmia, Gladiador, O Reino dos Céus, Alexandre, Babel, Príncipe da Pérsia e A Paixão de Cristo rodaram cenas em Ouarzazate ou nos seus arredores, com várias delas a usar diretamente as kasbahs e vielas de Aït Benhaddou como cenário ou pano de fundo. As sequências de Zucchabar em Gladiador e os exteriores de Jerusalém em O Reino dos Céus estão entre as produções mais associadas ao próprio ksar, em vez dos lotes de estúdio construídos de propósito nas proximidades. Para quem visita hoje, tentar perceber qual viela ou muralha pertence a qual filme tornou-se quase um jogo, mesmo que os guias nem sempre concordem sobre o local exato.
Yunkai, e uma nova geração de fãs
Aït Benhaddou conquistou um novo público em 2013, quando a HBO usou o ksar como Yunkai, uma das cidades-escravas da Baía dos Escravos, na terceira temporada de Game of Thrones. Para um sítio cuja história real inclui séculos como fortaleza de rotas de caravanas que transportavam pessoas escravizadas para norte, a cidade-escrava fictícia erguida sobre as suas muralhas é um eco estranho do passado real — e apresentou Aït Benhaddou a uma geração de viajantes que nunca tinha ouvido falar de Lawrence da Arábia. Os produtores da série foram atraídos pelas mesmas qualidades que fascinaram cineastas meio século antes: uma paisagem que quase dispensa cenografia para parecer de outro mundo.
Identificando os locais hoje
Os guias que conduzem visitas pelo ksar e arredores de Ouarzazate costumam assinalar onde foram rodadas cenas específicas, e os estúdios CLA e Atlas (reserváveis à parte, sem qualquer vínculo com os detentores de direitos de filmes específicos) ainda exibem cenários deixados de produções passadas. Nada disto é gerido pelos próprios estúdios no ksar — Aït Benhaddou continua a ser, antes de mais, um sítio UNESCO habitado, com a sua história cinematográfica como uma camada bem visível por cima. Vale a pena ajustar as expectativas em conformidade: trata-se de um património vivo com um rico complemento cinematográfico, não de um parque temático construído em torno de uma única franquia, e as curiosidades sobre os filmes devem ser encaradas como mais uma dimensão de um lugar já de si multifacetado.
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